A transição energética no setor de transportes não é mais uma aspiração distante, é uma realidade que está moldando decisões de investimento em frotas logísticas agora. Pressões de clientes, exigências de mercado ESG e metas de descarbonização corporativa estão forçando empresas de logística a repensar suas estratégias energéticas.
Mas qual é o caminho mais viável? Eletrificação total? Biocombustíveis? A resposta é mais nuançada do que parece. Dois combustíveis renováveis estão emergindo como soluções práticas para a transição energética no transporte pesado: o biometano e o diesel verde (HVO). Ambos oferecem vantagens distintas, e compreender suas características, viabilidade econômica e aplicações é essencial para gestores de logística que precisam tomar decisões informadas sobre suas frotas.
O Contexto da Transição Energética
O Brasil tem uma meta ambiciosa: alcançar uma matriz energética 85% renovável no setor de transportes até 2055. Para isso, o Plano Nacional de Energia prevê um avanço em três frentes: biocombustíveis, eletrificação de veículos e combustíveis sustentáveis de aviação.
Estudos recentes mostram que biocombustíveis, eletrificação e ajustes nos modais podem reduzir até 70% das emissões do setor de transportes. Isso não significa que um único combustível resolverá o problema, a transição será plural, com diferentes tecnologias atendendo a diferentes segmentos da logística.
Para transporte pesado (caminhões e ônibus), onde a eletrificação ainda enfrenta desafios de autonomia e infraestrutura, biocombustíveis como biometano e HVO oferecem soluções imediatas e viáveis economicamente.
Biometano: Gás Natural Renovável
O biometano é gás natural renovável produzido a partir de resíduos orgânicos, aterros sanitários, resíduos agroindustriais, efluentes de indústrias. Fisicamente, é idêntico ao gás natural convencional, o que permite sua injeção na rede de gás canalizado existente e seu uso em veículos movidos a gás natural.
Evolução Regulatória
A jornada do biometano no Brasil começou com marcos regulatórios que estabeleceram padrões de qualidade (Resoluções ANP nº 8/2015 e nº 685/2017). O ponto de virada foi a Lei do Gás (Lei nº 14.134/2021), que consolidou o biometano como equivalente ao gás natural em todo o arcabouço regulatório. Mais recentemente, a Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) criou uma política específica com mandato de mistura de biometano ao gás natural, impulsionando a expansão da indústria.
Matérias-Primas e Viabilidade Econômica
O biometano pode ser produzido a partir de múltiplas fontes. Aterros sanitários são atualmente os mais competitivos, pois não exigem investimentos em biodigestores e não têm custos de matérias-primas, os aterros já são remunerados para receber resíduos orgânicos. Porém, o potencial de biometano de aterros é limitado e já está próximo de sua saturação.
O grande potencial está no setor sucroenergético. Bagaço de cana, vinhaça e torta de filtro são subprodutos disponíveis nas fábricas de açúcar e etanol que podem ser convertidos em biometano. Diferentemente dos aterros, o potencial do setor sucroenergético está longe de seu limite técnico, oferecendo oportunidades significativas de expansão.
Aplicações no Transporte
Caminhões e ônibus movidos a biometano já circulam nas ruas brasileiras. A IVECO, por exemplo, vendeu 55 caminhões S-Way movidos a gás natural e biometano para a Reiter Log. Frotas públicas também adotam a tecnologia, o IDAF (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal) começou a circular com 250 veículos em biocombustíveis, reduzindo emissões de gases de efeito estufa em até 80%.
A infraestrutura de distribuição também está evoluindo. A injeção de biometano na rede de gás canalizado começou no Sul do país, permitindo que transportadoras acessem o combustível através da infraestrutura existente.
Vantagens e Desafios
As vantagens do biometano são claras: redução significativa de emissões, utilização de resíduos (economia circular), geração de coprodutos como biofertilizantes e incentivos fiscais através do REIDI. Além disso, biometano de aterros é economicamente competitivo.
Os desafios incluem infraestrutura de distribuição ainda em desenvolvimento, necessidade de veículos específicos (não compatível com motores diesel convencionais) e modelos de negócio ainda em consolidação. A indústria do biometano é emergente, com diversidade tecnológica e ausência de padrões consolidados.
Diesel Verde (HVO): Compatibilidade Imediata
O diesel verde, conhecido como HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), é óleo vegetal hidrotratado, tipicamente derivado de óleos vegetais como soja. Diferentemente do biodiesel, o HVO é um combustível completamente renovável que pode ser armazenado, distribuído e abastecido na infraestrutura diesel existente.
Características Técnicas
A grande vantagem do HVO é a compatibilidade. Veículos diesel convencionais podem usar HVO sem qualquer modificação no motor. Isso significa que frotas antigas e novas podem adotar o combustível imediatamente, sem investimentos em adaptações tecnológicas.
Estudos indicam que HVO reduz entre 50% e 80% de emissões de CO2 ao longo de todo seu ciclo de vida. Essa redução é significativa e comparável a outras tecnologias de descarbonização.
Disponibilidade e Custo
HVO já está disponível no Brasil, embora em volumes limitados. O combustível é mais caro que diesel convencional, o que representa um desafio para adoção em larga escala. Porém, alternativas estão surgindo, o BeVant, por exemplo, oferece custo 50% inferior ao HVO puro, mantendo benefícios ambientais significativos.
Aplicações no Transporte
HVO é aplicável a qualquer veículo diesel: caminhões, ônibus, frotas de transporte pesado. A compatibilidade retroativa, ou seja, a capacidade de usar o combustível em veículos mais antigos, é um diferencial importante para frotas que não podem fazer renovação completa de frota.
Vantagens e Desafios
As vantagens do HVO incluem compatibilidade com infraestrutura existente, sem modificações necessárias nos veículos, redução significativa de emissões e aplicabilidade universal a qualquer motor diesel.
Os desafios são principalmente econômicos: custo mais elevado que diesel convencional e dependência de incentivos fiscais para viabilidade econômica em larga escala. Além disso, a disponibilidade ainda é limitada, com infraestrutura de distribuição em desenvolvimento.
Comparação Prática: Qual Escolher?
Para gestores de logística, a escolha entre biometano e HVO depende de múltiplos fatores. Se sua frota é predominantemente diesel e você busca uma solução imediata com mínimo investimento em adaptações, HVO é a escolha mais pragmática. A compatibilidade com infraestrutura existente e a ausência de modificações necessárias tornam a adoção rápida.
Se você está planejando renovação de frota ou tem acesso a infraestrutura de gás natural, biometano oferece potencial econômico superior a longo prazo, especialmente se você puder acessar biometano de aterros ou do setor sucroenergético.
Muitas empresas estão adotando uma abordagem híbrida: usando HVO para a frota existente enquanto transitam gradualmente para biometano em veículos novos. Essa estratégia permite descarbonização imediata enquanto se prepara para a transição de longo prazo.
Perspectivas para 2026 e Além
O biometano está em expansão acelerada. A capacidade instalada crescerá significativamente, com maior diversidade de matérias-primas além de aterros. A injeção de biometano na rede de gás canalizado se expandirá, facilitando acesso ao combustível.
HVO verá crescimento em disponibilidade e redução gradual de custos conforme a indústria escala. Incentivos fiscais em discussão podem tornar o combustível economicamente mais viável.
Em ambos os casos, a transição energética no transporte será gradual, com diferentes tecnologias coexistindo e atendendo a diferentes segmentos da logística. O importante é que gestores de logística comecem a avaliar essas opções agora, alinhando suas estratégias de frota com metas de descarbonização corporativa e exigências de mercado.
A transição energética no transporte não é um evento futuro, é um processo que está acontecendo agora. Biometano e diesel verde (HVO) oferecem caminhos viáveis para descarbonização de frotas logísticas, cada um com vantagens e desafios distintos.
A escolha entre essas tecnologias deve ser baseada em análise cuidadosa de sua frota atual, objetivos de descarbonização, acesso a infraestrutura e viabilidade econômica. Empresas que começam essa transição agora ganham vantagem competitiva, demonstram compromisso com sustentabilidade e se posicionam para atender a exigências futuras de clientes e reguladores.
A Elitta Consultoria Ambiental auxilia empresas de logística a avaliar opções de transição energética, desde análise de viabilidade econômica de biometano e HVO até estruturação de estratégias de descarbonização de frota. Nossa equipe trabalha para garantir que sua empresa faça a transição energética de forma estratégica, rentável e alinhada com metas de sustentabilidade.





